23/04/2009

Do Pó ao pó*

Nem um pedido de desculpas. Nem uma frase de consolo. Nem uma explicação. Eu nasci e não morri. Ou melhor: eu morri, sim, mas estou aqui. Onde? Não sei. Faço parte de uma história. Você também faz? Para a direita ou para a esquerda. Para qual lado devo partir? E como? Quando percebi o arquivo sendo fechado, nem estranhei. Ele costuma fechar o arquivo todas as noites, afinal. Foi quando eu estava prestes a atravessar o rio Pó. Você conhece a Itália? Cresci ali, até onde sei. À beira do maior rio italiano. O fato é que, mesmo depois de Amélia morrer afogada no rio Pó, eu decidi continuar. Ele me permitiu continuar. Eu estava prestes a continuar. É assim mesmo? Tanto faz. O que eu quero dizer é que ele sempre, sempre acessa o arquivo novamente, no outro dia. Geralmente pela manhã. De manhã o sol invade o escritório, que reúne todos os escritos dele. Todos os escritos. Escritos. Com um fim. Veja bem, pela lógica, as histórias têm um começo, um meio e um fim, não? Ou será que algumas delas chegam quase à metade e ali desaparecem, sem deixar vestígio? Eu estou incomodado. Estou incomodado. Inconformado. Certo, errado? Eu nem ao menos sei se não morri afogado quando fui atravessar o rio imenso. Afinal, é o maior rio da Itália! Norte da Itália. Eu lembro que são 652 quilômetros, ao longo do Norte da Itália. Eu já contei que o rio Pó fica no norte da Itália? Que nervoso, meu Deus. Está escuro aí também? Tenho a nítida sensação de que não vejo mais nada. Nada, nada, nada. Mas vejo. Vejo sim. Vejo um amontoado de letras ao meu lado, atrás, na frente, em cima e embaixo. Eu sou um amontoado de letras. Parece apertado, não? E eu sei que ele costuma fechar o arquivo todas as noites, após salvar cada nova palavra digitada no laptop novo. Novinho, o laptop. Nasci ali mesmo. Para qual lado devo partir? O arquivo não foi mais aberto. Desde aquela noite. O último parágrafo de que me recordo era mais ou menos assim: eu, em frente ao rio. Amélia em meus pensamentos. A correnteza do rio. O canto dos pássaros. As lágrimas que escorriam de meus olhos. A saudade de Amélia, que parecia poder surgir, a qualquer instante, de dentro das águas do rio Pó. Diretamente para os meus braços. Embora eu soubesse que isso já não fosse mais possível e que eu precisava, a todo custo, atravessar o rio. Atravessar o rio Pó e seguir adiante. Então ele salvou e fechou o arquivo. Fechou o laptop. E não voltou mais. Faço parte de uma história interrompida. É assim mesmo? Algumas histórias chegam quase à metade e ali desaparecem, sem deixar vestígio? Estou incomodado. As primeiras páginas fluíram tão bem. De manhã, com o sol que invadia o escritório, lá estávamos nós. Eu e ele. Ele e eu. E eu sou ele. Ele é eu. Ou será que não sou ele e ele não é eu? Que nervoso, meu Deus. As primeiras páginas fluíram tão bem. Eu ainda acho que poderia ter encontrado Amélia em outra ocasião, que não fosse uma igreja. Nosso primeiro encontro foi o maior pecado de todos! Imagine: embaixo do altar! Sim, nós dois, embaixo daquele lugar santo! E dali até a página 85 foi tudo tão mágico, tão perfeito. Seguimos juntos para as proximidades de Milão e... já nem sei se sinto saudades de Amélia. Devo sentir? Tenho a nítida sensação de que não sinto mais nada. Nada, nada, nada. Mas sinto. Sinto falta do cheiro do café da manhã. Do cigarro que ele fumava freneticamente em frente ao laptop. Da luz que descia da luminária postada sobre a mesa, todas as noites. O arquivo não foi mais aberto. Ele me permitiu continuar. Todos os escritos. Eu nasci e não morri. Que nervoso, meu Deus. Está escuro aí também? Eu sou um amontoado de letras. As primeiras páginas fluíram tão bem. Eu e ele. Ele e eu. Faço parte de uma história interrompida. Eu já contei que o rio Pó fica no norte da Itália?

* Texto de minha autoria (óbvio! hehe) publicado no livro ONZE MARGENS, resultado do Curso de Formação de Escritores do SESC Santa Catarina, ministrado por Dennis Radünz, em Florianópolis/SC (2008)

3 comentários:

Kacau disse...

Quantas perguntas e respostas.Foram belas palavras essas suas,foi como uma história contada em diversas frases curtas e aleatórias mas ainda assim muito poético.

http://messnatural.blogspot.com/

Alice Daniel disse...

Thiago, adorei o teu texto. Às vezes, o leitor percebe nosso texto de forma diferente e nem sei se percebi como querias, afinal eu não sou tu e tu não és eu. Li como se estivesse aturdida frente à vida. às mudanças, às mesmices, ao nada e ao tudo que se tornava a minha vida.
Eu não conheço o rio Pó, mas senti imensa saudade dele, porque ele poderia ter enfim mudao a história.

Maurício Moreira disse...

muito bom seu blog parabens prometo voltar mais vezes