28/02/12

DESABAFO

Ser 100% verdadeiro é difícil. Mas é possível. E quando você age assim, você ganha pontos - e não o contrário. Pelo menos comigo.
Posso não ser nada, posso não ser ninguém, mas quando deixo alguém entrar na minha vida, deixo que entre pela porta da frente.
É o mínimo que faço por quem eu gosto. Ou por quem aparece do nada e me conquista.
A escolha de sair pela porta dos fundos, não é minha. É sua.
A escolha de fazer com que o mínimo se resuma a nada também não me diz respeito.
Sei lá se é por medo, falta de coragem ou de consideração pelo outro, mas as pessoas sempre escolhem a pior forma de fazer as coisas quando querem "cair fora", não é? Quando na real elas poderiam ser tão bacanas e, veja bem, mesmo depois de dizer o que gostariam....elas continuariam sendo especiais pra mim!
Simplesmente porque me trataram com a mesma dedicação que dei a elas.
Simplesmente porque mostraram que eu significo algo pra elas.
Só que, mais uma vez, a coisa não foi bem assim.
Pra você, pode ser besteira.
Pra mim, fica apenas a sensação ruim.
Bem ruim.

16/12/09

SENTIMENTOS PASSAGEIROS ou SOBRE COMO AS COISAS SE REPETEM

Sim. Sentimentos são passageiros. Não importa a intensidade. Não importa se você tem 16 anos. Ou 31. Você ama alguém e, de repente, já não visualiza planos a longo prazo. Aquela saudade passou, o ódio se diluiu, a culpa se perdeu no tempo. O sentimento, não é mais. E passam os anos. E aí você percebe que estar sozinho é um (bom) caminho. E aí você olha pra trás e percebe ainda que tanta coisa se repetiu, que tanto amor não vingou, que tanta saudade pra quase nada, que tantas noites em claro...pra que? Que tanto desperdício por algo que, lá na frente, não será mais? E aí você me pergunta: é melhor se trancar no escuro do quarto e jogar a chave fora? E eu respondo: claro que não. Sentir essa mistureba toda ainda é a melhor coisa do mundo. Mas é uma lástima que a gente nem sempre constate isso a tempo de evitar que certos sentimentos devastem nosso centro. E isso se repete a vida toda. E isso cansa. E saiba que, mesmo depois de quebrar a cara, você vai lá e faz tudo de novo. Igualzinho. E aí sente tudo de novo. E tudo, de novo, passa. E, envolto nesse círculo vicioso, me pergunto: preciso disso? Pois decidi que não. Não preciso. Afinal, ficar sozinho é um bom caminho, sim. Nada de remorso, nada de culpa, nada de sentimentos. Nada de repetições. Nada de nada. Eu sinceramente acreditei, por um bom tempo, que certos acontecimentos podem ser isolados ou que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas a vida é infinitamente maior do que costuma-se prever. E, ainda assim, é previsível demais. Quando você tem 31 anos e ama alguém, infinitamente, mais que tudo e, por circunstâncias diversas, esse amor termina (impossível medir isso, não?), opa! Você chega a conclusão de que já viu esse filme em algum lugar. Onde? Se olhe no espelho. E aí você sente os ombros pesados, os pés se arrastam e você anda por aí desnorteado, com a sensação de que qualquer cachorro vira-latas tem a vida mais interessante que a sua. Pois, acredite: tem mesmo. Uma lástima constatar isso, né não? Decidi dar um tempo, enfim. E que venha mais esse capítulo. Cheio de sentimentos. Que seja. Mas, sozinho. Talvez aí eu tenha a impressão de que certas coisas não se repetirão. E esse, definitivamente, será o melhor caminho.

10/12/09

O DIA AMANHECEU CINZA

“So much hurt / So much pain
Takes a while / To regain / What is lost inside”
("Out of Reach", Gabrielle)


Escuto "Out of Reach", uma música muito legal - e tristonha - de uma cantora chamada Gabrielle. Nem sei porque comecei o post falando dessa música. Mas hoje, na real, não tenho muito pra falar, não gosto de dias cinzas e Floripa amanheceu cinza. Não sei se alguém vai ler isso, não sei o que realmente quero escrever. Não sei. Floripa por vezes me inspira, por vezes me suga, por vezes me desestabiliza. A cidade, às vezes, nos engole. Lembro-me quando morei em São Paulo. Boas lembranças, embora a maior cidade brasileira tenha me consumido. Fugi de lá. Guri novo, despreparado, não consegui lidar com a vida que me chamava – reconheço. Mas não me arrependo, não. Em Floripa, guardadas as devidas proporções, também sinto um pouco disso. Essa coisa de “energia do lugar”. E aí eu sinto falta de pessoas, de momentos que ficaram pra trás. “Leva um tempo pra gente recuperar o que está perdido por dentro”, diz a música de Gabrielle. Tem horas que acho que esse “tempo”, no meu caso, sempre demora um pouco mais. Demorei a me acostumar com Floripa, demorei a encontrar o equilíbrio necessário pra suprir a falta que sentia (e sinto!) dos meus amigos, daquela vida que ficou pra trás, do meu teatro, de tanta coisa. Eu ando pelas ruas dessa cidade e, até hoje, não consigo saber se amo ou odeio esse lugar. Se um dia descobrir, talvez vá embora. Porque aí já não terá mais graça. Sei que quando começo a me cansar de algo, de alguém ou do lugar em que estou, eis o sinal: devo procurar outra coisa que me instigue, outra pessoa que não me canse, outra cidade que me permita respirar melhor. Hoje o dia amanheceu cinza e eu, que acordei com a bunda e o corpo todo destapados no escuro do meu quarto, senti frio. Por isso esse post íntimo, cujas palavras talvez nem signifiquem nada pra ninguém. A vida é assim mesmo: momentos incrivelmente solitários pra todo mundo, dias cinzas, palavras perdidas, a gente sem entender nada...e talvez nem precisemos entender. Quando entendemos tudo, tudo perde a graça.

06/10/09

UMA VERSÃO ÔCA

Em um episódio da série SIX FEET UNDER (no Brasil, "A SETE PALMOS"), a personagem da magnífica atriz Lauren Ambrose, Claire Fisher, diz uma frase que é mais ou menos assim: "Tudo parece ter sido substituído por uma versão ôca da mesma coisa". Claro que, na história, isso tinha um contexto que agora eu nem lembro qual é. Mas o fato é que a frase me marcou muito e comecei a perceber que, em alguns aspectos, a minha vida também está ôca. Embora a vida ainda seja a mesma. Não entendeu? Prestenção: sabe quando aquilo que preenchia parece ter escorrido pelo ralo? E o que restou permanece ali...uma carcaça, cheia de espaços vazios? Não, eu não fiz uso de nenhuma droga antes de escrever isso. Na verdade, nem sei explicar muito bem. Sei desse tal vazio. Da inexistência. Sei de tudo ainda ali. Me encarando. Do meu ladinho. E não sei explicar muito bem. Fazer o que? O contexto da frase dita por Claire Fisher era outro, com certeza. Mas apaixonado pela série como sou, sei que a vida da personagem sempre foi um turbilhão de pensamentos, dúvidas, decepções e constatações, típicas do ser humano e expostas de forma exagerada pela série. Mas como me identifico com isso!! Nossa!! Talvez porque tudo sempre aconteça de forma quase igual para todos nós. Né, não? Acredito que essa "versão ôca da mesma coisa" seja um tempo necessário. Talvez para ampliar nosso olhar. Talvez para que possamos aprender um pouco mais sobre nós, sobre o outro ou sobre seja lá o que for.

01/09/09

SOBRE ESCOMBROS ou A ARTE DE SER FELIZ*

Casal soterrado após terremoto.Penumbra, quase escuridão completa. Ouvem-se vozes.

ELE, com dificuldade – Amor?
ELA, sem forças – Ai, minha perna tá presa...
ELE – Estamos perto. Segura aqui...pega a minha mão!
ELA – Pronto, peguei!
ELE – Agüenta firme.
ELA – Que bom que você tá aqui comigo...
ELE – Na alegria e na tristeza. Na riqueza e na pobreza. Na saúde e na doença...e embaixo de um prédio desabado também.

Não era o momento mais apropriado. Mas, eles riram.

ELA – Lembra do dia em que a gente se conheceu?
ELE – Sim...era quase tão apertado quanto agora...
ELA, sorrindo – O metrô tava lotado...(ela tosse)
ELE – Você tá bem?
ELA - Sim, mas acho que engoli alguma coisa....deve ser poeira.
ELE, retomando o papo - Achei ótimo quando você parou na minha frente. Fiquei te olhando...(ele sorri). E a perna?
ELA – Tá um pouco dolorida. Não solta a minha mão.

Passam-se duas horas.

ELE – Será que vão achar a gente?
ELA – Não sei. Coisa de cinema, né? “Vivos”.
ELE – Já não fizeram um filme com esse nome? Eu vi, acho...
ELA – Prefiro o “Titanic”.
ELE – Não tem um apito aí? Podia apitar, como a Kate Winslet fez. Talvez alguém escutasse.
ELA – Bobinha ela. Devia ter afundado com o Di Caprio.
ELE – Eles foram tão felizes juntos.
(silêncio)
ELA – Nós...somos...tão felizes juntos.
ELE – Não solta minha mão...

Já não havia mais tempo. Foram encontrados dias depois, de mãos dadas.


*Texto produzido para o Curso de Formação de Escritores do SESC/SC.

19/05/09

ANTES DE PARTIR

- Não desliga mais na minha cara! Alô?? Não! Eu vou falar agora! Me escuta! Você vai me escutar! Eu queria....eu queria, sim, que tudo tivesse sido diferente. Queria mesmo...sabe? Eu queria ter aquela sensação de "coisas completas". E não isso...não esse amontoado de dias, de horas...de segundos em que vivi preso a...(pausa)...Anos e anos se perderam bem em frente aos meus olhos e se perderam simplesmente por eu ser quem eu sou...por eu ser como sou. Eu queria....eu queria que você nunca tivesse se aproximado de mim com aquele papo idiota. Com esses seus olhos azuis e...com esse seu jeito que, na verdade, não é nada...nada demais. Nada. Esse seu jeito não me pega mais...eu não me engano! Sei muito bem o que se passa na sua cabeça e te digo: você é tudo o que eu jamais gostaria de ser. Rezo para que alguém tenha a feliz idéia de furar seus dois olhos qualquer dia desses. Rezo para que algo te aconteça, não sei bem o que...o que sei é que você merece! Entendeu? Merece!! Ninguém...eu disse ninguém...em momento algum, teve pena de mim. Ninguém parou ao meu lado...ninguém me deu a mão, ninguém me colocou no colo. Ninguém me perguntou se eu sofria! E eu sofria, porra!! Noites e noites passei pensando em como fazer para te tocar...em como eu deveria agir quando te encontrasse novamente, em como...(pausa) eu te desejava tanto! E ninguém perguntou se eu sofria...eu sofria...Aquele teu papo idiota, como se nada fosse nada e eu, estupidamente...me rendi a ele...Quem você pensa que é? Você não é nada, eu já disse! Nada!! Eu repito isso e te odeio e cuspo na tua cara. Eu rezo incansavelmente para que algo te aconteça, mas...

O OUTRO DESLIGA.
ELE LIGA NOVAMENTE.

- Alô, mas que merda, já disse pra você não desligar! Você me deve isso!! Será que você não entende? Eu queria descobrir de onde nasceu essa sua empáfia, esse seu jeito superior, essa...(pausa) Que dor de cabeça...(pausa)...Sabe, eu jamais deveria ter dado o primeiro passo. Eu nunca deveria ter respondido ao seu primeiro resquício de contato, naquele dia. Ainda bem que a gente cresce, quebra a cara e aprende algumas coisas. Ergo as mãos pro céu pra dizer que, mesmo depois de passar pelo que você me fez passar, ouviu bem?, você, que é o único culpado, e...já nem sei o que eu ía falar...Que merda! Não dê risada! Não faça isso porque eu sou capaz de...

MAIS UMA VEZ, O OUTRO ENCERRA A LIGAÇÃO.
MAS ELE VOLTA A LIGAR.

- Porra! Se você desligar de novo, eu...(pausa) Não diga isso, seu filho de uma puta! Você sempre soube que eu te amei! Você sabia disso! Sabia!! Ah, é claro! É claro que isso era um prazer pra você...muito você deve ter rido da minha cara cada vez que eu ía embora! Cada vez que uma carta minha chegava até suas mãos...Olha, eu juro...(pausa)...pelo que há de mais sagrado...que eu vou rezar dia e noite....eu vendo a alma ao diabo se for preciso...mas algo ainda há de acontecer com você (pausa)...É, isso é muito ruim, me faz mal, mas eu preciso te ver sofrer....e você vai sofrer, porque nem sempre as coisas vão acontecer como você planeja. O que eu quero que você saiba, é que você jamais terá alguém como eu ao teu lado. Ninguém nunca vai te querer. Ninguém..............jamais..................você não merece, eu...........eu sofri tanto.......................quem você pensa que é?

ELE DESLIGA. ANTES DE PARTIR, ENXUGA O ROSTO.
O ESPELHO FORA A ÚLTIMA TESTEMUNHA DE SUA TRISTEZA.

23/04/09

Do Pó ao pó*

Nem um pedido de desculpas. Nem uma frase de consolo. Nem uma explicação. Eu nasci e não morri. Ou melhor: eu morri, sim, mas estou aqui. Onde? Não sei. Faço parte de uma história. Você também faz? Para a direita ou para a esquerda. Para qual lado devo partir? E como? Quando percebi o arquivo sendo fechado, nem estranhei. Ele costuma fechar o arquivo todas as noites, afinal. Foi quando eu estava prestes a atravessar o rio Pó. Você conhece a Itália? Cresci ali, até onde sei. À beira do maior rio italiano. O fato é que, mesmo depois de Amélia morrer afogada no rio Pó, eu decidi continuar. Ele me permitiu continuar. Eu estava prestes a continuar. É assim mesmo? Tanto faz. O que eu quero dizer é que ele sempre, sempre acessa o arquivo novamente, no outro dia. Geralmente pela manhã. De manhã o sol invade o escritório, que reúne todos os escritos dele. Todos os escritos. Escritos. Com um fim. Veja bem, pela lógica, as histórias têm um começo, um meio e um fim, não? Ou será que algumas delas chegam quase à metade e ali desaparecem, sem deixar vestígio? Eu estou incomodado. Estou incomodado. Inconformado. Certo, errado? Eu nem ao menos sei se não morri afogado quando fui atravessar o rio imenso. Afinal, é o maior rio da Itália! Norte da Itália. Eu lembro que são 652 quilômetros, ao longo do Norte da Itália. Eu já contei que o rio Pó fica no norte da Itália? Que nervoso, meu Deus. Está escuro aí também? Tenho a nítida sensação de que não vejo mais nada. Nada, nada, nada. Mas vejo. Vejo sim. Vejo um amontoado de letras ao meu lado, atrás, na frente, em cima e embaixo. Eu sou um amontoado de letras. Parece apertado, não? E eu sei que ele costuma fechar o arquivo todas as noites, após salvar cada nova palavra digitada no laptop novo. Novinho, o laptop. Nasci ali mesmo. Para qual lado devo partir? O arquivo não foi mais aberto. Desde aquela noite. O último parágrafo de que me recordo era mais ou menos assim: eu, em frente ao rio. Amélia em meus pensamentos. A correnteza do rio. O canto dos pássaros. As lágrimas que escorriam de meus olhos. A saudade de Amélia, que parecia poder surgir, a qualquer instante, de dentro das águas do rio Pó. Diretamente para os meus braços. Embora eu soubesse que isso já não fosse mais possível e que eu precisava, a todo custo, atravessar o rio. Atravessar o rio Pó e seguir adiante. Então ele salvou e fechou o arquivo. Fechou o laptop. E não voltou mais. Faço parte de uma história interrompida. É assim mesmo? Algumas histórias chegam quase à metade e ali desaparecem, sem deixar vestígio? Estou incomodado. As primeiras páginas fluíram tão bem. De manhã, com o sol que invadia o escritório, lá estávamos nós. Eu e ele. Ele e eu. E eu sou ele. Ele é eu. Ou será que não sou ele e ele não é eu? Que nervoso, meu Deus. As primeiras páginas fluíram tão bem. Eu ainda acho que poderia ter encontrado Amélia em outra ocasião, que não fosse uma igreja. Nosso primeiro encontro foi o maior pecado de todos! Imagine: embaixo do altar! Sim, nós dois, embaixo daquele lugar santo! E dali até a página 85 foi tudo tão mágico, tão perfeito. Seguimos juntos para as proximidades de Milão e... já nem sei se sinto saudades de Amélia. Devo sentir? Tenho a nítida sensação de que não sinto mais nada. Nada, nada, nada. Mas sinto. Sinto falta do cheiro do café da manhã. Do cigarro que ele fumava freneticamente em frente ao laptop. Da luz que descia da luminária postada sobre a mesa, todas as noites. O arquivo não foi mais aberto. Ele me permitiu continuar. Todos os escritos. Eu nasci e não morri. Que nervoso, meu Deus. Está escuro aí também? Eu sou um amontoado de letras. As primeiras páginas fluíram tão bem. Eu e ele. Ele e eu. Faço parte de uma história interrompida. Eu já contei que o rio Pó fica no norte da Itália?

* Texto de minha autoria (óbvio! hehe) publicado no livro ONZE MARGENS, resultado do Curso de Formação de Escritores do SESC Santa Catarina, ministrado por Dennis Radünz, em Florianópolis/SC (2008)

24/02/09

EXPRESSOS


Estranho, né?, ela disse.
O que é estranho?, ele respondeu.
Nós dois aqui...eu simplesmente entrei e...veja só.
Coincidência, ele completou, simpático.

As mãos dela entrelaçadas, nervosa.
Ele olhou o relógio. A chuva havia diminuído. Estava com pressa.
Ela o observava. O expresso havia esfriado. Estava carente.
Naquela manhã um temporal duplicara o caos já diário da cidade. Véspera de feriado, trânsito lento, metrô lotado. Pessoas que, incansavelmente, caminhavam pelas ruas protegidas sob preciosos guarda-chuvas – o que não as livrava de encharcar sapatos em imensas poças d’água nas calçadas, bueiros entupidos pelo lixo urbano e pela própria chuva – que vinha de todos os lados. Ela entrou na cafeteria. Trazia consigo a solidão de uma vida, um semblante sério e a certeza de que aquele temporal acontecia apenas para castigá-la. Sentou-se no fundo, pendurou o casaco molhado na cadeira ao lado, pediu um expresso. O reflexo dos raios que caíam iluminava vez ou outra sua face, denunciando a contrariedade em seu rosto. Algumas quadras dali, do alto de um confortável apartamento, ele observava o céu, cada vez mais escuro. O vento soprava forte, espatifando-se contra a imensa porta da sacada. Rapidamente arrumou-se, beijou a esposa que ainda dormia e saiu. Previa uma estada mais longa pelo trânsito da cidade. Assim foi: quinze minutos após, já dentro do carro, tentava concentrar-se na suave melodia que colocara no som do automóvel – não queria absorver para si o tumulto do engarrafamento. Mas a cidade estava parada. Pensou em tomar um café, mas essa não era uma atividade costumeira. Só estacionou naquela garagem ao lado da simpática cafeteria porque uma placa sinalizava, em letras garrafais, que sobravam vagas. Ninguém parecia perceber isso. Ele percebeu.

Foi dentro do café que eles se olharam. Acima da chuva e do transtorno, havia o olhar, acompanhado pelo barulho dos pingos d’água que batiam contra a janela. Foi ela quem sorriu primeiro. Perguntava-se de onde tirara forças para mover os lábios e fixar o olhar na direção daquele homem. Ele retribuiu. Ela, no fundo. Ele, no balcão. Ela saboreava o expresso quando o viu. Ele procurava um lugar para sentar quando a percebeu sorrindo. Estranho momento. Caminho do trabalho, uma manhã. Uma manhã comum, como tantas. Como todo dia. Exceto pelo temporal. Exceto pelo sorriso dela. Ele achou graça. Com o cardápio na mão, pediu um expresso, enquanto observava a mulher simpática ao fundo. Foi ela quem acenou para ele sentar junto dela. Afinal, ela estava só. Sempre estaria. Não fossem as mesas ocupadas. Ele olhou ao redor. Foi. Apresentaram-se, trocaram amenidades. Falaram da chuva, do caos. Até dos bueiros entupidos. Ele falou sobre o quanto não era acostumado a tomar café, sobre o sapato molhado pela chuva. Ela não o olhava nos olhos, baixava a cabeça escutando-o falar sobre tudo. Percebeu os sapatos dele, encharcados. Era uma manhã de chuva. Ela, indescritivelmente solitária. Ele, com frio nos pés. E de repente, emudeceram. Só o barulho da chuva. Os pingos na janela.

Ela: Pode me falar mais sobre você? Há quanto tempo mora na cidade?
Ele, olhando o relógio: Bastante tempo...Olha, tenho que ir.
Ela, tentando salvar a si própria: Significou algo para você?
No mesmo instante, arrependeu-se da fala. Foi quando percebeu a aliança de casamento dele.
Ele, sem entender: Eu...
Ela, rindo, triste: Tudo bem. Também não significou pra mim.

Levantou-se. Olhou nos olhos dele, pela primeira vez. E saiu.
O olhar dele a acompanhou até a porta.
Ela foi embora. Ele também.
O dia seguiu. A chuva deu trégua.

23/01/09

LOOK CLOSER


- Hum...estou sentindo. Tire a calça pra eu enxergar melhor.

- Tem certeza? Você pode se assustar!

- Imagina, querido. Estou acostumada com coisas desse tamanho. Nossa! É duro, hein?

- Você não viu nada. Dá uma apertada aí que você vai ver como a ponta dele fica roxa.

- É mesmo. E tá saindo um liquidozinho também.

- Isso é porque você começou a mexer nele. Daqui a pouco é bem capaz de explodir.

- Não! Quero senti-lo mais um pouco. Preciso mexer até ele ficar a ponto de bala.

- Achou grande mesmo?

- Enorme. É o maior furúnculo que já vi numa nádega. Você vai sofrer para sentar depois que tirarmos. Mas logo passa.

- Menos mal, doutora. Melhor assim, melhor assim...